sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Lembrou do dia em que sonhou ter um cachorro só para ele. E explicava:
- Eu não tenho irmão, cachorro serve.
- Cachorro dá hidrofobia - disse a avó
- Dá o quê?!
- Doença!
- Mas a gente cuida dele, ué!
- Apartamento não é lugar pra cachorro - descreta o pai - e sabe quanto custa
alimentar um gigante desses?
- Eu quero um pequenininho
- Pequeno é pior ainda. Fica doente à toa.
- Então eu quero um amigo. Você compra?
Depois durmo com a sensação estranha de que quero ser diferente do que sou,
ou de que sou diferente do que quero ser, ou talvez de me comportar diferente
do que sou ou do que quero ser.

domingo, 9 de outubro de 2011



Ventava forte, as primeiras gotas de chuva começavam a esconder minhas lágrimas e lavavam minha alma. Cheirava chuva, as nuvens negras e carregadas da tempestade que estava por vir se moviam rapidamente sobre minha cabeça, o silêncio ecoava em minha mente. O banco vazio onde eu estava sentada me remetia a tudo o que eu queria esquecer, sentia que pouco a pouco o tempo ia me corroendo, machucando, quebrando. Mas nem eu me importava mais. A dor era sempre a mesma e, por oras, as lágrimas caíam e eu me demorava a lembrar o motivo.


Era um pássaro que voava suavemente no horizonte, desprovido de liberdade, mostrando sua beleza. Uma beleza natural, passiva, leve e profunda. Era intocável, distante, surreal. Quando pousava, encantava, então partia, e não mais voltava. Era doce e indomável, guardava teus sentimentos para poucos, mas para os que amava, era intenso, verdadeiro. Arisco, guardião de si e dos teus bens, independente, livre. Era de quem o olhava, mas não era de ninguém, era seu. E isso o bastava.